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Paula Andrada

Desligue o automático



Ligar o celular, ligar o carro, ligar o som e a TV. Amarrar os sapatos, escovar os dentes, verificar o WhatsApp, dirigir, digitar... Uma lista infindável de ações diárias nos faz observar o quão somos ou estamos automatizados. Talvez seja difícil perceber tamanha automatização, pois praticamente todas as nossas práticas já estejam inseridas no contexto de uma suposta “normalidade”.


Pausar: uma pausa para contemplar o pôr do sol
Pausar: uma pausa para contemplar o pôr do sol

Fazemos, sim, parte de um sistema que nos “obriga” a estar antenados ou, logicamente, estaremos fora dele. A questão é sabermos até que ponto precisamos entrar nessa roda viva ou como podemos colocar medida e limite nesta dose tão intensa de exigências de uma vida diária.



Ver Dona Maria ficar, diariamente, horas na janela de sua casa na rua principal de uma pequena cidade do interior de Minas pode nos parecer cena de um filme. Mas não é. Um comerciante que passa o dia sentado em uma cadeira na calçada em frente a sua venda, conversando com os transeuntes, também não é. Um senhor jogando xadrez na praça do interior, duas vizinhas conversando no portão por horas a fio...


São cenas da vida real, uma vida simples que se contrapõe à realidade de correr contra o relógio e viver na tentativa de agregar inúmeros desejos e expectativas, um emaranhado de pensamentos tentando se conectar e estabelecer um mínimo de ordem para que a prática se sobreponha à frustração de não realizar.


É inegável que a dinâmica da vida diária nos exija tamanha agilidade e a necessidade quase emergencial de darmos conta de tantas atividades simultâneas. Como se não tivéssemos outra opção. Fazemos, sim, parte de um sistema que nos “obriga” a estar antenados ou, logicamente, estaremos fora dele. A questão é sabermos até que ponto precisamos entrar nessa roda viva ou como podemos colocar medida e limite nesta dose tão intensa de exigências de uma vida diária.


Procurar o foco no presente é algo difícil no dia a dia, pois, ao fazermos tantas coisas no “automático”, nossos pensamentos geralmente estão em muitos lugares, menos ali onde deveriam estar. Mas há um caminho diferente a seguir se nos tornarmos observadores da nossa própria mente, percebendo os exatos momentos onde ela nos “rouba” a nossa presença.

Pequenos hábitos podem nos direcionar para a entrada em um outro modo de viver, que, apesar de simples, não é um caminho pronto, mas sim construído individualmente, com um olhar atento e gentil.


A prática de focar no presente pode nos permitir dar leveza ao nosso cotidiano. Ao invés de buscarmos sempre os grandes prazeres e resultados, somos capazes de nos surpreender com o simples, com pequenos e verdadeiros momentos, e se contrapor a tanta complexidade instalada em nossas vidas.


Degustar um café sentindo seu aroma e sabor e se envolvendo com o momento, regar uma planta e sentir o cheiro da terra, tomar um vinho observando suas peculiaridades, pisar na grama, bisbilhotar livros na prateleira de uma livraria, caminhar pela rua sem destino certo, fazer um bolo, comprar flores, enfim, vivenciar as “horinhas de descuido”, que segundo Guimarães Rosa são onde se encontra felicidade.


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✨ Paula Andrada


 Jornalista, escritora e constantemente em busca de mais pausas em seu cotidiano. Ama traduzir em palavras os aspectos desafiadores que a tecnologia trouxe para nossas vidas. Acredita que, apesar do excesso de informações, ainda é possível viver a poesia!


 

 

 

 

 

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